Porque meu gato e minh avó me fizeram reler Simmel

Ontem meu gato derrubou um copo que estava em cima da mesa. O copo era de plástico, não quebrou, mas fez barulho. Éramos 5 em casa – eu, minha avó, minha irmã e minha mãe.. e o gato. Ao ouvir o barulho do copo caindo, o gato assustou-se e saiu em disparada. Eu e minha irmã continuamos a fazer o que quer que fosse que estivéssemos fazendo naquele momento, minha mãe ralhou alto, da cozinha: “Tomás, pára de fazer besteira!. E minha avó? Ela apressou-se em verificar o que havia acontecido, pôs o copo de volta sobre a mesa, e partiu à caça do gato para ensinar-lhe boas maneiras… não que isso seja possível. Reparei que esse tipo de comportamento por parte dela era recorrente. Que frequentemente dava importância a fatos que eu, e mesmo minha mãe, tratamos com indiferença. E quantas vezes, de dentro de minha casa, não ouço tiroteios, batidas de carro, brigas, e sequer paro de fazer o que estiver fazendo para pensar sobre aquilo, ou simplesmente escutar?

Pensei em Simmel. Não foi ele que disse que os habitantes do campo agem mais com a emoção e os citadinos com a  razão? Que os habitantes das metrópoles acostumaram-se a receber estímulos mais intensos em com maior frequência e, por isso,  são mais frios diante de de acontecimentos e pessoas? Foi ele mesmo, lembro-me bem. Recorri ao texto parar verificar, diz mais ou menos o seguinte: “Com cada atravessar de rua, com o ritmo e a multiplicidade da vida econômica, ocupacional e social, a cidade faz um contraste profundo com a vida de cidade pequena e a vida rural no que se refere aos fundamentos sensoriais da vida psíquica”. E, ainda, que no campo, “o ritmo de vida e do conjunto sensorial de imagens mentais flui mais lentamente, de modo mais habitual e mais uniforme”. Simmel explica que, por outro lado, na metrópole, o homem “desenvolve um órgão que o protege das correntes e discrepâncias ameaçadoras de sua ambientação externa, nas quais, do contrário, o desenraizariam. Ele reage com a cabeça ao invés de com o coração. Nisto, uma conscientização crescente vai assumindo a prerrogativa do psiquismo”.

Simmel explica ainda que a metrópole é a sede da economia monetária, de modo que a mentalidade mercadológica acaba por penetrar nas relações interpessoais, e as duas coisas se confundem. Tal qual a economia monetária, o homem metropolitano lida com outras pessoas de forma distante e indiferente, tomando-as por números, não gente.

Sem levar em conta a dicotomia campo/cidade, creio que, no âmbito urbano (e, talvez, no rural também) semelhante diferença de comportamento à observada por Simmel possa ser observada tendo como elemento diferenciador a época vivida. Não que isso seja novidade, a frase “no meu tempo…” já começa histórias há anos, mas, nas últimas 5 décadas, talvez, o mundo vem sofrendo alterações mais bruscas e com maior frequência. Mais estímulos, mais imagens, sons, confusão. O homem de hoje acostumou-se com o ritmo de vida da metrópole. Tudo mudou… não só a correria no dia a dia, mas a forma de se fazer televisão, cinema, artes de modo geral. Eu, hoje, assisto Quentin Tarantino, minha avó, com a minha idade, assistia Bonequinha de luxo.

Em suma, o que quero dizer é que, cada vez mais, o homem metropolitano acostuma-se a um ritmo de vida mais e mais frenético, deixando de dar importância às coisas pequenas, aos pequenos acontecimentos (e mesmo aos grandes). Acostuma-se a ver morte nos jornais e já não se choca com isso. Acostuma-se a ouvir tiroteios de sua sala de estar e continua assistindo a sua televisão alheio a qualquer coisa. Acostuma-se a ouvir copos caírem no chão.

E de que forma isso se reflete nas relações desse homem com seus semelhantes? Esse tratamento distante do homem metropolitano atual, pode, acredito, ter implicações análogas ao que Simmel chama de atitude blasé. Segundo o autor, o homem das grandes cidades, como forma de proteção contra a indiferença assume um comportamento antipático, blasé, distante.

Atualmente, como diz Simmel, as relações interpessoais passam por relações lógicas, numéricas. Algumas pessoas detectaram esse problema e tentam fazer algo a respeito, no sentido de aproximar mais as pessoas, principalmente desconhecidos, de quebrar um pouco frenesi do nosso ritmo de vida, tornando as relações interpessoais mais humanas. Um bonito exemplo pode ser visto no video abaixo 

http://www.youtube.com/watch?v=l5wvQZDKIdQ   

 

Aproveito para deixar também uma citação de Denílson Lopes de A delicadeza: estética, experiência e paisagens

“O que fazer quando nosso cotidiano se transformou em experiência multimidiática? Acelerar, ir mais rápido, ser mais veloz, aderir ao simulacro ou estabelecer pausas, silêncios, recolhimento? Opto agora pelo sublime. O sublime não só como uma categoria do gosto, da experiência, nem como limite da representação moderna, mas, sobretudo, como uma categoria analítica e concreta de articulação das obras contemporâneas, para além dos impasses da arte moderna.

      Sem me alongar, parto de uma primeira e precária definição do sublime. O sublime seria a experiência entre horror e prazer, experiência de fascínio diante de uma paisagem, uma pessoa ou uma obra de arte. Como nos lembra Nelson Brissac Peixoto (1997, p.301-302), é “o impensável, o indiscernível”, “evidência de algo que não podemos ver nem definir, mas que nos arrebata”, “desejo indeterminado e imenso”, “o inomeável, inenarrável”.

      […]  À medida que cada vez mais o grandioso,  o monumental pode ser associado à arte dos vencedroes, de impérios autoritários, da arte nazista, do Realismo Socialista aos épicos hollywoodianos, é justamente no cotidiano, no detalhe, no incidente, no menor, que residirá o espaço da resistência, da  diferença”. (Lopes, 2007, p. 39, 40)

por: João França


About this entry